Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Pedras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luís Pedras. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Luís Pedras, a pessoa (2ªparte)

Nesta segunda parte da entrevista ao Luís Pedras, a conversa andou sobre o seu SLB, o desporto em Elvas, em particular o futebol, o nosso artesanato, o estado actual em que se encontra politicamente a nossa cidade, e qual o futuro que os elvenses podemos esperar.
A palavra é do líder local do Bloco de Esquerda.

TP – Sei que gostas de desporto, em especial o futebol. É desta que vais comemorar o título nacional?
LP - Não sei Scottish, ainda agora começou a 2ª volta e como sabes esta é uma prova essencialmente de regularidade. É um facto que o meu SLB só tem uma derrota com o Braga e têm ambos os mesmos pontos. O teu SCP se perder na próxima jornada poderá ficar definitivamente despachado a 15 pontos, e o FCP está a 6 e cada vez a jogar pior. Só por sorte não saiu da Taça, enquanto o meu SLB dá gosto ver jogar. O melhor ataque da Europa com 44 golos é obra, portanto é melhor encomendar as faixas e pensar fazermos a festa do GLORIOSO na rotunda.

TP – Falando de futebol. Acompanhas “O Elvas”? Como vês actualmente o clube?
LP - Sou adepto d'"O Elvas", e todos os clubes têm problemas. Nós tivemos já num bom patamar mas subiu-nos o rei à barriga e derrapámos por aí fora até chegar a esta humilhante e frustrante posição (distrital). A incongruência e falta de apoio das sucessivas direcções ditou o actual rumo do clube, no entanto não se pode deitar a toalha ao chão, há que levantar a cabeça e apoiarmos o clube. A união faz a força e Elvas precisa de um Clube Alentejano de Desportos forte e competitivo. Penso que se está a fazer um excelente trabalho nos escalões de formação e se deve apoiar com mais determinação e discernimento, pois de pequenino é que se torce o pepino, apesar de já ninguém trabalhar por amor à camisola, mas esta camisola tem de ser bem suada e respeitada por todos os atletas e dirigentes.

TP – O que achas que se deveria fazer para o clube voltar a marcar presença num patamar mais importante a nível nacional?
LP - Talvez o modelo já adoptado por outros clubes para terem alguma injecção de capital com a criação das S.A., ficando sempre o clube com 51% dos activos. Este é um problema demasiado grande. Penso que "O Elvas" nos próximos tempos (10 anos) não tem capacidade para enfrentar esse tipo de desafios, e talvez a melhor opção seja de facto uma opção similar aquela que adoptou o Campomaiorense à bastante tempo, a formação, pois temos que fazer a sementeira à nossa medida.

TP – A oferta desportiva que os jovens elvenses dispõem é bem maior do que na nossa altura. Como vês o desporto na nossa cidade?
LP - Não tenho duvidas nenhumas em afirmar que o parque desportivo de Elvas é dos melhores do interior de Portugal e regozijo-me por tal. De facto os complexos que foram criados possibilitam uma diversidade de modalidades que no nosso tempo não tínhamos. As próprias freguesias rurais já dispoêm também de bons complexos desportivos sabendo nós que há cidades e vilas por esse pais que não têm nada parecido. Portanto felicito o esforço que se têm vindo a fazer nesta área, e recordo-te que em 2008, por proposta minha na Assembleia Municipal, foi aprovada uma moção de louvor a "O Elvas" e "Os Elvenses" pela excelente performance competitiva e títulos alcançados em todos os escalões de formação.
Falando de apoios, a Câmara Municipal não pode ser constantemente o bombeiro salvador de todas as colectividades e clubes, pois a subsidio-dependência é uma má política para todas as direcções. A imaginação, criatividade, espírito de empreendimento são as chaves para muitos problemas que atravessam associações, colectividades e clubes. Captar a atenção de empresários através de projectos apelativos, inovadores e acima de tudo exequíveis, é o caminho a seguir. Por outro lado já é tempo de se incentivar os melhores atletas, através de prémios por revelação, mérito das suas prestações regionais, nacionais e também internacionais. Penso que esta é uma forma de estimular mais a competição entre os atletas.


TP – Voltando às tuas profissões, consideras que o nosso artesanato está a melhorar e a ganhar importância, ou necessitaria de alguma remodelação?
LP - O artesanato sempre teve a sua importância quando bem contextualizado, isto é, não faz sentido a olaria tradicional por exemplo do Redondo estar a fabricar travessas em forma de peixe feitas por máquinas, e mais grave ainda decoradas com flores típicas dos pratos. Neste sentido é preciso reequacionar métodos, estabelecer processos e definir programas, porque só assim é que se consegue manter uma identidade. Por outro lado podem-se e devem-se estabelecer pontes, comunhões entre o tradicional e o moderno, e a realização de feiras de artesanato deve obedecer a regras, normas e perfis pré-estabelecidos, senão não passam de simples feiras de actividades económicas. Neste sentido é necessário proteger o verdadeiro artífice ou artesão, e por isto estou neste momento a desenvolver um projecto de uma associação transfronteiriça de artistas plásticos. Penso que é um projecto pioneiro tendo em conta o desenvolvimento de conceitos de eurocidades, e que pode trazer bastantes benefícios para todos os artistas. A interactividade e o intercâmbio de conhecimentos é sempre uma mais valia para todos. O artesão deve apostar sobretudo no rigor e qualidade em detrimento da quantidade. Só assim se pode entrar com sucesso nesta sociedade onde cada vez mais impera a competitividade.

TP – Estando a entrevistar um candidato à autarquia, mas sem querer entrar em discussões políticas, e despindo a camisola do partido, gostaria de saber como vês actualmente a nossa cidade de uma forma global?
LP - Sinceramente essa história de mimetismo, isto é adaptar-se ao meio segundo as circunstâncias ou despir a camisola segundo as intenções, não me diz absolutamente nada. Um homem é aquilo que é e nada mais, porque o resto chama-se pedantismo, ser aquilo que realmente não é. A nossa cidade sofreu nos últimos anos muito desenvolvimento estrutural e consequentemente a qualidade de vida dos elvenses melhorou indubitavelmente. A recuperação da biblioteca, do cine-teatro e do antigo Cine São Mateus, do Estádio Municipal e Piscinas Municipais, o saneamento básico, a circular, embora lhe falte a ciclo-via o que considero imperdoável, quando se desenvolvem conceitos de sustentabilidade urbanística. No entanto e comparando com anteriores gestões, esta tem conseguido algum progresso e desenvolvimento para o concelho. Já tive oportunidade para o dizer e seria hipócrita senão o fizesse, esta é a minha forma de estar na politica, com energia positiva. Por outro lado regozijo-me por algumas propostas que tenho vindo a fazer tanto na Assembleia Municipal como no programa que apresentei, estarem a ser reformuladas e aproveitadas e felicito os responsáveis por terem essa coragem.
Elvas globalmente melhorou isso é inegável, embora ainda faltem equipamentos fundamentais como um Centro Cultural, uma praia fluvial porque temos todas as condições para desenvolver um projecto deste tipo, e o turismo necessita de uma politica estrutural e sustentável, pois medidas avulsas não se compadecem com o futuro. Penso que no entanto chegou a hora de unir, de juntar forças, para que de uma forma honesta e leal se criem condições e compromissos de reciprocidade. Para uma democracia participativa é necessário envolver mais os cidadãos, comprometê-los com a vida da cidade, pois às vezes num pequeno pormenor reside a diferença.


TP – Ninguém tem uma varinha mágica para resolver os problemas, mas na tua opinião o que se poderia fazer para debelar os problemas existentes?
LP - Implementar a Agenda 21, isto é, promover a democracia participativa nos conselhos municipais, comissão municipal para o turismo, provedor do munícipe, mais abertura, discussão e debate. Duas cabeças pensam melhor que uma e três melhor que duas. A democracia também significa assertividade e é fundamental saber conviver com a critica de uma forma positiva, sem rancor ou retaliação. Vivemos numa sociedade moderna e é fundamental que esse modernismo chegue também às mentalidades. Ser justo com as pessoas revela sobretudo capacidade de tolerância, a relação de proximidade entre o cidadão e o político estabelece mais confiança e ajuda a desvanecer o cepticismo.

TP – Pensas, como cidadão elvense, que o nosso futuro está profundamente ligado ao TGV, comboio de mercadorias e plataforma logística?
LP - Este projecto é vital para o futuro de Elvas tanto em termos de emprego como de desenvolvimento. É sem duvida uma mais-valia fundamental para a afirmação da nossa região, tal como é a candidatura das nossas fortificações a património mundial. Considero que se estes dois projectos forem uma realidade, a nossa cidade dará um passo de gigante para sair da crise. Outro projecto também importante é a construção da prisão em Vila Fernando, e com a consolidação destes projectos estão reunidas todas as condições para se captar mais investimento em empreendimentos turísticos, serviços e transportes. Sou bastante optimista e penso que se está a fazer tudo para que sejam uma realidade muito próxima.

TP – Os elvenses vão contar com o Luís Pedras, num futuro a médio e longo prazo, como político local? Há motivação para continuar ou pretendes dar o salto para voos mais altos?
LP - O Luís Pedras sabe bem aquilo que quer. Neste momento estou muito empenhado e entusiasmado com a minha actividade artística de ceramista, e provavelmente não vou estar disponível para assumir mais cargos dentro do BE. Possivelmente não me irei recandidatar para a Comissão Coordenadora Distrital, e em termos Concelhios vamos ver também como será. Quando se pretende descentralizar, regionalizar e se sente que o partido está cada vez mais urbano e assimétrico, então há algo que não funciona e as ultimas eleições disseram-me isso mesmo. O meu activismo político está intacto e de boa saúde, mas nada está decidido. Os problemas são debatidos em local próprio e em sede própria, a liberdade de cada um é também a liberdade de todos, e quando se estabelecem regras também se estabelecem direitos. Para se fazerem omoletes são necessários ovos...

Creio que o amigo Luís Pedras com esta entrevista nos deu a oportunidade de conhecer um pouco melhor quem é o líder local do BE. Foi sem dúvida uma conversa de amigos, sem tabus políticos, e desde já agradeço a pronta disponibilidade do Luís quando lhe pedi a entrevista.

Scottish

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Luís Pedras, a pessoa (1ªparte)

Luís Pedras é o líder da concelhia do Bloco de Esquerda na nossa cidade. Foi candidato pelo seu partido nas últimas eleições autárquicas, tendo sido a terceira força política mais votada. Tem 44 anos, é casado, pai de 2 filhos, e conheci-o quando trabalhámos num Despachante Oficial, no tempo em que ainda havia fronteiras na UE. Agora é artesão e formador de artesanato, e desde 1995 está na política.
Não conseguiu entrar na Câmara como vereador e só na Assembleia Municipal o BE registou um mandato, no caso, o Alcides Silva.

O Três Paixões vai dar a conhecer a pessoa, e desde já agradeço a amabilidade desta entrevista ao Luís Pedras. Será publicada em duas partes, e nesta primeira falamos de como surgiu a política no seu caminho, de como a família o apoia, ou do passado e presente profissional tendo como base a olaria. A não perder!

Três Paixões – Quando sentiste que a política te atraía?
Luís Pedras - Desde muito cedo que me interesso pela política. Quando era aluno do 10º ano na Secundária já estava ligado à JS. Fui apoiante da primeira candidatura de Mário Soares à presidência, e o socialismo democrático sempre norteou a minha consciência política. Considero que os pilares de uma sociedade moderna assentam num estado verdadeiramente social, onde todos sem excepção tenham igualdade de oportunidades, direito a uma habitação digna, direitos iguais à educação, saúde, trabalho e justiça, no fundo é a essência da nossa Constituição.
A política é um dos status da nossa natureza, pois o homem é um animal político, mas a política surge em mim como uma necessidade cívica. Denunciar, alertar para os atropelos constantes desta sociedade assimétrica, é na verdade a condição "si ne qua non" da minha vivência. A arte também me revelou a necessidade desta atitude, a pintura de Goya "Os Fuzilamentos" ou o quadro "Guernica" de Picasso ilustram perfeitamente esta coexistência ou dualidade arte/política.


TP – Identificavas-te na altura com os ideais políticos dos partidos que existiam, ou só decidiste avançar quando surge o BE?
LP - Como referi anteriormente os meus ideais são socialistas, um socialismo moderno e democrático que enfrenta as preocupações e problemas sociais com determinação e frontalidade. Não vale a pena andar a esconder os tabus, eles existem, fazem parte de nós, desta sociedade, e por mais fracturantes que sejam têm que ser enfrentados e resolvidos, como por exemplo o aborto ou o casamento/união de facto de cidadãos do mesmo sexo. A nossa sociedade não pode perder o comboio da evolução, o conservadorismo só serve para ocultar verdades, a dialéctica existencial sobrepõe-se a qualquer ideal político. Sempre foi esta a minha visão politica, desde os tempos da JS, passando por uma candidatura como independente à Junta de Freguesia de Caia e São Pedro, apoiada pela CDU de João Vintém. Portanto ainda não existia o BE, somente em 2004 comecei a actividade politica com o BE, e em 2005 tornei-me militante e criou-se a CCD. Desde então faço parte da comissão eleita, fui eleito deputado municipal de 2005 a 2009 sendo o melhor resultado do BE em todo o Alentejo.

TP – Qual foi a opinião da tua família quando avançaste para a política?
LP - A posição da minha família sempre foi bastante assertiva, respeitou sempre esta decisão, no entanto como todas as famílias não gosta de ver o seu tempo, o tempo da família que considero extremamente importante e fundamental para estabelecer uma boa relação, ser "usurpado", retirado. Quando se está em campanhas eleitorais sofremos um desgaste físico e mental verdadeiramente avassalador, e é perfeitamente lógico e compreensível que os níveis de preocupação subam bastante por todos aqueles que nos amam e gostam de nós.

TP – Mudando de assunto. Trabalhas-te comigo num Despachante Oficial, mas quando esse capítulo da nossa vida encerrou, por onde estiveste?
LP - Como sabes ainda estive cerca de 9/10 anos nessa actividade. Depois da data fatídica de 01/01/1993, o mercado único, a abertura das fronteiras foi realmente uma machadada enorme na economia local e no emprego. Não foi fácil de repente ficar desempregado, mas não desarmei, não deitei a toalha ao chão. Sempre fui um amante das artes e assumi essa condição de artífice e artista. Muitas vezes digo que há males que vêem por bem e assim aconteceu, pois abracei esta arte, este ofício com determinação e muita responsabilidade. Fiz a minha formação com bons mestres oleiros tradicionais e mestres estrangeiros de renome internacional como o mestre Kimura, ou o grande mestre espanhol Arcádio Blasco. Realmente consegui absorver toda a essência desta arte ancestral através dos conhecimentos, do ensinamento ao longo de cerca de 16 anos com estes mestres e a experiência e reconhecimento através de prémios regionais, nacionais, e internacionais, feiras e exposições individuais e colectivas.
Penso que somente com empenho, dedicação, prazer e satisfação, rigor e qualidade, é que podemos enfrentar esta sociedade cada vez mais competitiva e exigente. A olaria, a comunhão dos quatro elementos da formação do mundo, a terra (barro), o ar (O2), a água e o fogo, o domínio do fogo, deu-me outra visão da arte.
A actividade como formador também ocupou parte destes anos, pois ministrei diversos cursos de formação profissional, worshops e formação durante 10 anos no Centro Educativo de Vila Fernando. Considero mesmo que este foi o maior desafio pedagógico que tive e ao mesmo tempo uma experiência muito enriquecedora. Sou formador desde 1995 e sempre na área obviamente da cerâmica, concretamente azulejaria, decoração cerâmica, modelação, RAKU e ÁGATA, e roda tradicional.


TP – A olaria é uma virtude, uma paixão, ou foi a possibilidade de seguir em frente?
LP - Como sabes a poesia filosófica, a arqueologia, a antropologia e a paleontologia foram sempre áreas ou ciências que me despertaram interesse e curiosidade. A necessidade de compreender bem o nosso passado para poder explicar melhor o presente sempre me fascinou, e a olaria estabelece essa ponte entre o passado e o presente através do domínio do fogo, técnicas de modelação, preparação de pastas e a própria cromática (os óxidos). É esta versatilidade e potencialidade que nos oferece a cerâmica, que me seduziu inexoravelmente.
Depois desenvolver projectos como o "Fénix-renascer da ronca de Elvas" e verificar que se estão a revitalizar, a recuperar tradições, no fundo alimentar a raíz da nossa identidade cultural, mergulhar nessa memória colectiva e emergir com uma lufada de ar fresco. Dá-me muito prazer e satisfação, porque sinto que estou a contribuir positivamente para que a nossa essência cultural não se desvaneça.


TP – Tens muitos alunos? Quais as idades?
LP - Todos sabemos as idades dos formandos que tinha no Centro Educativo de Vila Fernando, enquanto na formação profissional já aparecem alunos de praticamente todas as faixas etárias desde que sejam adultos. Por exemplo, o workshop na ESE de Porlalegre eram os futuros professores de EVT, enquanto que na Escola Básica 2,3 nº2 da Boa-fé eram alunos e pais em interactividade sobre as roncas.

Não perca amanhã a segunda parte da entrevista a Luís Pedras.